Assim que foi eleito governador de Minas Gerais, em 1951, Juscelino Kubitschek (1902-1976) idealizou uma rodovia ligando o Sul da Bahia à região do Vale do Jequitinhonha, onde nasceu. Afinal de contas, era necessário honrar o slogan “Binômio: Energia e Transporte” que havia embalado sua campanha. Conhecida atualmente como BR–367, a estrada – que era sonho e vontade de integração – de fato começou a ser feita durante a gestão de JK, mas até hoje não foi concluída.

Ao contrário do que foi idealizada, a via tem funcionado como uma barreira que impede o desenvolvimento chegar ao Vale do Jequitinhonha. Ao mesmo tempo, ela mantém a região, uma das mais carentes do país, isolada. Diversos trechos ainda são de terra, sem asfalto, e as pontes da rodovia são estreitas, de madeira.

Para piorar, depois que o Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG) devolveu a gestão da rodovia para o governo federal, há cerca de dois anos, a manutenção não estaria sendo feita regularmente. A consequência são buracos e crateras que dificultam o tráfego, causam prejuízos ao comércio e, muitas vezes, acidentes fatais.

Nascido na região, o deputado estadual Dr. Jean Freire (PT) já fez de tudo para chamar atenção para a situação da rodovia, de fechamentos da pista a pronunciamentos na Assembleia Legislativa e reuniões com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Os esforços, porém, até agora têm sido em vão. “Todos os últimos governos ignoraram a questão. É uma situação criminosa”, desabafa o parlamentar, ressaltando que o descaso é motivado por preconceito com a região. “O Dnit tem sido cruel, criminoso e covarde com o Vale do Jequitinhonha. Se essas rodovias fossem no Sul de Minas ou no Triângulo, não estariam assim”, opina.

A solução, segundo ele, passa pela Justiça. “A cada acidente, prejuízo ou morte, vamos ajuizar ações contra o Estado e a União”, diz.

Fragmentação. O problema é similar na BR–251. Projetada para ligar o Nordeste a Goiás, passando pelo Vale do Jequitinhonha, a rodovia também nunca foi concluída. Hoje, ela é fragmentada e não existe como uma via linear. Em Minas Gerais, é composta de quatro trechos distintos, que alternam pavimentação e terra. Obras para completar as ligações entre os trajetos já existentes nunca saíram do papel.

O resultado é uma dificuldade imensa para quem circula por lá. “A estrada está terrível, praticamente não tem como andar. É comum chegar gente aqui, achando que a via tem asfalto, e dar de cara com essa poeira toda. Não tem jeito, é um acidente atrás do outro”, relata o comerciante João Carlos Rodrigues, 72, de Almenara.

Acidentes

Dados. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, em 2015 a BR–251 teve 370 acidentes, com 36 mortos. Já na BR–367, próximo a Araçuaí, foram 76 batidas graves e 12 óbitos, conforme a Seds

Respostas

BR–251. Em nota, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) afirmou que a maior parte da BR–251 está coberta por contratos de conservação. Ainda de acordo com o Dnit, o único trecho não contemplado até agora está entre Salinas, no Norte de Minas, e o entroncamento com a via MG–307 (Grão Mongol), de 122 km. Porém, ele já possui licitação em andamento. 

Licitação. Para o trecho entre Grão Mongol e Montes Claros, também no Norte do Estado, segundo o Dnit, “há previsão de licitação de manutenção com ações mais robustas”. O órgão informou que já existe um projeto executivo de restauração e duplicação do segmento entre Montes Claros e o entroncamento com a MG–122.

Abrangência. Segundo o Dnit, a BR–367 “também encontra-se contemplada com contratos de manutenção em quase sua totalidade. Os trechos ainda não cobertos encontram-se aptos a serem licitados”. O departamento, porém, não informou quais são esses trechos nem quando a
concorrência ocorrerá.

FOTO: DEPUTADO DR. JEAN FREIRE

CONSERVAÇÃO

PROBLEMA PIOROU, DIZEM MORADORES

Proprietário de duas pousadas em Araçuaí e Itaobim, ambas no Vale do Jequitinhonha, o turismólogo Pedro Lages, 29, encara pelo menos três vezes por semana os 70 km da BR–367 entre as duas cidades e garante: nunca viu a rodovia tão ruim como agora. “Nos últimos seis meses, ela está abandonada. Já teve momentos ruins, mas, como agora, eu nunca vi, está intransitável”, diz.

Para a pedagoga Juliana Amaral, 32, moradora de Pedra Azul, é injustificável que a BR–251, entre sua cidade e Almenara, no Norte de Minas, não seja asfaltada. “Quando não chove, é uma poeira só. Se chove, vira um lamaçal. Ou seja, é intransitável em qualquer época”, critica.

O empresário Paulo César de Assis, 48, morador de Virgem da Lapa, diz que o problema é político. “A impressão que eu tenho é que os governantes preferem investir em outra região”, avalia. (JRF)